Ao contrário de outras modalidades esportivas, por assim dizer, o xadrez não permite que os jogadores extravasem com facilidade a pressão sofrida durante uma partida. O xadrez parece um jogo calmo, educado, tranquilo, pois os dois adversários ficam a uma certa distância, sentados, movimentando apenas as mãos, cruzando ou balançando as pernas, coçando, apoiando ou mexendo a cabeça. De vez em quando levantam para ir ao banheiro, esticar as pernas, observar as outras partidas ou tomar uma água ou cafezinho disponibilizado pela organização do evento. Talvez justamente aí more o perigo, pois durante uma partida de xadrez a tensão pode ser muito grande. Há jogadores que se prepararam durante dias ou meses para aquele momento. Há outros que buscam um prêmio ou a classificação para algum outro torneio. Para alguns existe o aspecto financeiro, que pode ser o prêmio em dinheiro que o torneio oferece ou então a possibilidade de serem reconhecidos como bons jogadores. Essa última pesa muito, principalmente em relação àqueles que vivem profissionalmente de xadrez, quer seja jogando ou dando aulas. As cidades que contratam querem jogadores competitivos e os alunos querem professores que mostrem na prática aquilo que se propõem a ensinar.
E toda essa tensão acumulada fica ali, guardada. No futebol dá, por exemplo, dá pra dar um bico na bola, um pique, uma entrada dura no adversário, xingar o juiz. No xadrez nada disso! Talvez por esse motivo seja que há alguns jogadores que, ao perderem uma partida, derrubem as peças, saiam quase correndo do salão, embora as reações mais comuns sejam balançar a cabeça em uma espécie de auto-reprovação, dar risinhos irônicos, não querer analisar a partida ou então resolver analisar, mas fazer disso uma guerra pessoal, tentando mostrar que estava ganho, que calculou melhor, menosprezar os lances do adversário, desmerecer sua vitória, etc.
Mas ao meu ver, pior que demonstrar essas atitudes, algumas até bem compreensíveis, é a atitude de muitos jogadores que ganham a partida e saem dando risada ou não querem analisar porque ganharam muito facilmente e não querem perder tempo com alguém que joga muito pior ou não tem uma boa compreensão do jogo.
O que dá para perceber é que o xadrez imita a vida. E como muito bem frisou o ex-campeão mundial Garry Kasparov: "O xadrez é a vida em miniatura". Este, aliás, possuidor de vários comportamentos questionáveis perante seus adversários, o que não se justificava nem pelo seu xadrez genial.
Todos nós em algum momento durante uma partida de xadrez fomos arrogantes ou agredimos de alguma forma, mesmo velada, nosso adversário. Certos arroubos são mais comuns. quando somos mais novos e estamos com a os hormônios e adrenalina a mil, mas o tempo nos ensina ou deveria ensinar que podemos ser mais tolerantes e menos egocêntricos.
E o xadrez, como na vida, tem muitos aspectos políticos envolvidos. Esse microcosmo da sociedade detém qualidades e principalmente muitos defeitos. Temos que nos lembrar que o xadrez é um jogo altamente individualista. Ao jogar uma partida de xadrez não estamos ajudando ninguém, apenas a nós mesmos. O xadrez de competição não ajuda as pessoas ou dá exemplos muito sadios. Visto porém, por outro prisma, o xadrez em algum momento pode ser muito útil no desenvolvimento de outras aptidões como matemática, lidar com derrotas, enfrentar problemas de forma objetiva, etc.
Nesse aspecto, vejo o xadrez como uma espécie de droga, que se consumida em proporções terapêuticas ou utilizado como mecanismo de desenvolvimento, tende a ser bem útil. Porém, quando passa a ser muito competitivo e lida com certos egos e interesses, tende a ser profundamente destrutivo.
Assim é com muitos esportes e jogos. O ideal é ter o xadrez como algo mais a nos dar prazer, a nos servir. Admiro, mas não invejo, alguns profissionais que se dedicam quase inteiramente ao xadrez, quer seja jogando, dando aulas ou vendendo livros e softwares. Não é nada fácil. E também percebo que os que se deram ou se dão bem fazendo isso, se dedicam a outras atividades de forma mais reduzida, claro. Praticar um esporte, ler livros, ver filmes, se dedicar à família e eventualmente doar um pouco de seu tempo enxadrístico ajudando os mais jovens e interessados, tudo isso faz com que os profissionais do xadrez, apesar das dificuldades, mostrem-se mais equilibrados e felizes. São aqueles que saem de seu casulo individualista e estão dispostos a repartir um pouco de seu sucesso e experiência.
Jogamos melhor quando o fazermos por prazer. Não são poucas as vezes, ao analisar uma partida com os amigos que nos surpreendemos com as idéias que surgem ou com os lances que não vimos, pois estamos curtindo isso, sem pensar no resultado.
Falar é muito fácil. Na prática é muito difícil lidar com todos esses problemas, mas se pelo menos começarmos a pensar de que forma podemos ajudar a transformar o xadrez, essa vida em miniatura, em uma ambiente mais saudável ou pelo menos livre dos piores vícios que estão aí na sociedade, estaremos fazendo com que haja mais tempo para o prazer puro e simples de jogar uma partida de xadrez.
domingo, 27 de junho de 2010
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Gostei muito do texto! Para um capivara como eu, que adora jogar xadrez, mas leva a coisa como um Hobby, é difícil entender algumas atitudes de certos adversários. Quando mais jovem eu não aceitava muito, sempre fui meio esquentadinho. Hoje, porém, costumo sentir pena do pobre coitado e entender sua fragilidade nos outros campos...
ResponderExcluirBelo texto!
Parabéns pelo texto Ivan... Gostei muito também da entrevista que você fez com o André Fernandes, ví as 5 partes... Muito boa, parabéns!!!!! Qualquer dia apareço na Cantina do Mario para conhecê-los pessoalmente. Valeu
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